terça-feira, dezembro 12, 2006

Relações traumáticas



Um manual para evitar novos dissabores românticos
Por Nina Lopes

Em uma conversa animadíssima com amigas este final de semana, chegamos à conclusão de que somos, gradativamente, impregnadas de traumas deixados por nossas ex-namoradas. Aliás, os traumas com relacionamentos começam antes mesmo deles existirem. Observe atentamente às letras das músicas que nos ninaram e fizeram parte das nossas brincadeiras durante anos:

"Sete e sete são catorze,
Com mais sete vinte e um
Tenho sete namorados
Mas gosto de nenhum...

"7 namorados? Não é por acaso que tem tanta mulher infiel por aí."...

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou.
O amor que tu me tinhasEra pouco e se acabou..

"Quer coisa mais traumática que saber que o amor de alguém era pouco e se acabou?"

Depois de passarmos a infância inteira sendo bombardeadas com mensagens pouco inspiradoras, iniciamos nossas vidas afetivas e, com elas, os primeiros dos muitos traumas que viveremos ao longo de nossa existência. Mulheres que fumam (para quem não fuma, traumatiza sim), mulheres que não se entregam, mulheres que não querem casar, mentirosas, infantis, esquizofrênicas, ciumentas... Cada uma de nós tinha um trauma (recente ou não) para debater.

Depois de muita discussão - e cerveja também - concluímos que o ideal seria andar com um questionário no bolso e passar a candidata à namorada por uma bateria de testes, antes mesmo do primeiro beijo.

Funcionaria mais ou menos assim:

Você a paquera, de longe. Ela corresponde e começa o jogo da sedução. Lentamente vocês vão se aproximando e iniciam uma conversa introdutória.

- Qual o seu nome? – Você pergunta.
- Ariane Deize e o seu?
- Fulana de tal.
- Então Ariane, você se importaria em responder umas perguntinhas antes de prosseguirmos o papo?

Com cara de interrogação e sem-graça demais para negar, ela faz que “sim” com a cabeça. Você tira a lista calmamente do bolso e com a cara mais séria do mundo, inicia o questionário:

- Você é louca?
- Você diz que ama e na semana seguinte termina o namoro?
- Você tem medo de casar?
- Você trai?
- Você é louca? (é bom repetir a pergunta, para ver se ela não mentiu na primeira vez)
- Você fuma? (no meu caso, essa pergunta é fundamental, pois tenho rinite alérgica)
- Você gosta de sexo? (nunca se sabe)
- Você é ativa ou passiva? (essa pergunta é opcional, para quem acredita na divisão de papéis)
- Você é mentirosa compulsiva?

Baseada em todos os traumas que lhe causaram, você cria as perguntas que mais lhe convém, a fim de evitar histórias repetidas, afinal, errar é humano, mas persistir no erro é burrice. As seqüelas de um trauma podem ser fundamentais para que nos tornemos cada vez mais seletivas e exigentes. A palavra trauma, do grego “traúma”, significa ferida. Ora, se fomos feridas ao longo da vida, é natural que evitemos situações que nos exponham às mesmas mágoas. Porém, há que se cuidar para que o trauma não se transforme em um escudo de proteção impenetrável. Algumas situações são tão contundentes que paralisamos. Não conseguimos prosseguir a vida de maneira saudável, mesmo que doloridas. Neste momento, prefira uma terapia a um questionário de mais de 250 perguntas, que a impediria de iniciar qualquer nova relação.

Traumas fazem parte da magia dos relacionamentos. São intrínsecos. Saber curá-los e usá-los de maneira positiva os transforma em grandes aliados. Eles serão os alertas que a impedirão de sofrer novamente pelos mesmos motivos. Novos sofrimentos, novas feridas, novas dores são pesarosos, claro, mas de nos fazem crescer e ver a vida sempre sob um novo prisma.

Nina Lopes tem inúmeros traumas de estimação, devidamente curados mas sabiamente catalogados, e é editora da revista Sobre Elas – www.sobreelas.com.br

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